Sociedade: Escândalo, pó e morte

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O nome e o rosto de Susana Vieira estão gravados na memória coletiva dos brasileiros. Ela divide com algumas poucas estrelas, como Hebe Camargo e Glória Menezes, a sensação de que existem desde sempre – o que é verdade, se o marco zero da história for o começo da televisão. Aos 66 anos, tem uma característica rara: continua a ser protagonista de novelas. Se não ganha o papel principal desde o início, em algum momento ela o devora, pela capacidade de infundir uma energia tão poderosa que ofusca tudo a seu redor. A isso se chama o poder de empatia e sedução das estrelas. É por isso que o público a ama, ao contrário de colegas que se atritam com a atriz de temperamento difícil e competitivo. E é por isso que não existe mulher no Brasil que não tenha acompanhado suas aventuras na TV e suas desventuras na vida real, que culminaram com a morte do ex-marido Marcelo Vieira da Silva, que por duas vezes a traiu e humilhou em público. É um lugar-comum comparar a vida de atores às tramas mirabolantes das novelas, mas provavelmente existem poucos exemplos mais cabíveis do que a história de amor, fama, poder, deslumbramento, ascensão social, traição e escândalo que aproximou e afastou Susana e Marcelo com a força de mil sóis da paixão e o apelo abissal da autodestruição. Nessa narrativa tão antiga quanto a humanidade, Susana era o personagem principal e Marcelo aquele coadjuvante de caráter duvidoso e comportamento inconveniente que todo mundo desconfia que não vai acabar bem no final. É a lição de moral que o senso comum de justiça exige, mas que quando acontece não pode deixar ninguém feliz.

Marcelo Silva, ex-soldado da PM, morreu no vigor dos 38 anos assombrado por alucinações terríveis que o atormentaram durante as suas últimas doze horas de vida. Imaginava estar sendo seguido por um homem e passou a noite tentando encontrá-lo. Tanto os delírios quanto o infarto que provavelmente o matou foram provocados pela cocaína que cheirou sem cessar. A nóia e a overdose, no linguajar dos drogados, são fenômenos diferentes, mas se uniram para destruir Marcelo de maneira inapelável. Antes de morrer, no começo da manhã de quinta-feira, ele se jogou no banco do carro estacionado na garagem do prédio onde morava, “como se estivesse atracado com alguém”, disse a namorada, Fernanda Cunha, com quem dividiu os últimos e escandalosos dias. Nos momentos derradeiros, imaginava ter finalmente agarrado o algoz imaginário, o fantasma que o perseguia. “Te peguei, te peguei”, gritou, segundo Fernanda contou à polícia. Em seguida se acalmou, como se estivesse dormindo. Aliviada, a namorada voltou ao carro e se sentou ao lado dele. Marcelo estava morto. Uma moradora que havia acudido foi a primeira a perceber ao iluminar o rosto dele com uma lanterna e notar um fio de sangue correndo pela boca.

 A morte por overdose costuma decorrer de derrame ou infarto: o sistema cardiovascular não agüenta a descarga de noradrenalina, um neurotransmissor, o mesmo responsável pela inefável sensação de euforia que vem com a coca. Mesmo em usuários acostumados, ou com físico de atleta, como Marcelo, pode acontecer o momento em que o corpo não agüenta, pelo excesso de droga ou, o que é mais raro em razão da qualidade inferior do pó distribuído no Brasil, por sua pureza incomum. “O infarto em quem usa cocaína é diferente do habitual na meia-idade, que acontece por causa do entupimento de uma artéria do coração”, explica Dartiu Xavier da Silveira, professor do Departamento de Psiquiatria da Unifesp e diretor-geral do Programa de Orientação e Atendimento a Dependentes (Proad). “No caso da cocaína, acontece um espasmo, uma contração abrupta de artérias do coração, e o sangue deixa de circular.” A jornada de Marcelo rumo a esse espasmo fatal começou no início da tarde de quarta-feira, quando comprou cocaína de ex-colegas de farda num estacionamento no centro do Rio de Janeiro. Foi o que disse Fernanda, segundo o depoimento no qual ela aparece dormindo em diversos e convenientes momentos – no caso, só acordou a tempo de vê-lo conversando com dois policiais ao lado de um carro da PM. Dali, foram para o motel Shalimar, nas proximidades da favela do Vidigal.

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No começo da noite, Fernanda conta ter presenciado o comportamento transtornado pela primeira vez. Ele dizia estar sendo perseguido, falava sozinho, olhava nos cantos do quarto. Chegou a imaginar que Fernanda estava “de rolo” com o tal perseguidor. Os surtos em drogados funcionam de maneira quase idêntica aos de uma doença mental como a esquizofrenia paranóide. Como nos acometidos pelo distúrbio, os delírios parecem terrivelmente verdadeiros. Às 4h30 da madrugada, segundo as contas de Fernanda, voltaram para o apart-hotel onde moravam havia um mês, na Barra da Tijuca. Enquanto dirigia, ele cheirou mais e chegou alucinado à garagem do prédio. Circulava entre as vagas, freava bruscamente, gritava. Quando parou o carro, um Polo prata, começou a revistá-lo. Só interrompeu o surto de atividades frenéticas ao se jogar, prostrado, no banco do carona. Dali não saiu vivo.

Fernanda é uma bela nutricionista de 23 anos, filha de um médico e fazendeiro de Goiânia, que foi para o Rio fazer um curso de pós-graduação, conheceu Marcelo, apaixonou-se e desencadeou o último escândalo ao usar o truque clássico – e baixo – da “outra”: ligar para a mulher oficial e contar tudo, na tentativa de forçar uma ruptura. Conseguiu. Depois de uma agressão que resultou em queixa à polícia, os dois se reconciliaram, contra a vontade da família dela, que chegou a cortar a mesada da jovem. Marcelo apareceu em programas de televisão fazendo declarações incrivelmente grosseiras, mas condizentes com seu perfil de boa-praça meio destrambelhado, que fala as besteiras como lhe vêm à cabeça. Antes da reconciliação com Fernanda, disse que “ela foi muito fácil, esfregava na minha cara; se eu não chegasse, seria chamado de gay”. Em relação à atriz, a crueldade foi inconsciente: “Perdi a melhor mãe que já tive” (antes) e “Agradeço tudo o que a Susana fez por mim, mas as coisas têm início, meio e fim; eu e Fernanda estamos felizes” (depois). Nos bastidores, parecia desnorteado e dividido entre Susana, de quem parecia gostar de verdade, e Fernanda, com quem fazia planos de casar e ter filhos. Estava montando um negócio de transporte para executivos. Há duas semanas, embarcou com a namorada numa viagem de navio de Santos ao Rio, num encontro promovido pelo grupo Narcóticos Anônimos – uma incrível ironia, considerando-se que, quando estava com Susana Vieira, mentia que ia a reuniões do gênero para se encontrar com a outra. “Nunca aprovamos a união deles, mas era um ser humano que estava com nossa filha”, diz a mãe de Fernanda, a psicóloga Terezinha Cunha. “Fernanda deu sorte de não ter sido morta por ele durante o surto”, afirma o irmão dela, Cristiano.

Susana Vieira estreou na nascente televisão brasileira em 1963. Tinha o tipo de rosto que as câmeras adoram, mas ainda estava no fundo da tela – era contratada da TV Tupi para dançar durante a apresentação de cantores. Lá conheceu o primeiro marido, o diretor Régis Cardoso, falecido em 2005. Teve com ele o filho único, empresário que mora em Miami. Eram tempos ainda ingênuos quando fez o primeiro papel importante, o da babá malvada na novela Anjo Mau, da Globo. Num processo incomum, ela foi ganhando mais destaque com o tempo, que sempre pareceu desmentir com a aparência jovial (ajudada pelas plásticas de costume) e o temperamento desafiador. O segundo marido e o primeiro mais novo foi Carson Gardeazabal. Casou-se com ele em 1986, enfrentou uma temporada de escândalos quando ele foi acusado de duplo homicídio e se separou em 2003. A diferença de dezesseis anos saltou para 28 em 2006, quando ela conheceu Marcelo Silva, um típico bonitão da Baixada, de olhos verdes, corpo sarado e um incontornável fraco por mulheres. O primeiro encontro foi num ensaio da escola de samba Acadêmicos da Grande Rio, onde ela era a madrinha de bateria e ele fazia bico como segurança. Em duas semanas, Marcelo se mudou de Nilópolis para a casa dela, na Barra. Em três meses, anunciaram o casamento.

É impossível que uma mulher como Susana não soubesse das trocas presentes nesse tipo de relação, mesmo se sentindo desejada e amada de verdade, como testemunham amigos que acompanharam o envolvimento. E é impossível que ele não se deslumbrasse com a nova vida, de súbita notoriedade e múltiplas benesses. “Ela pegou um cara do subúrbio, trouxe para a Barra da Tijuca, deu a ele uma vida deslumbrante, algo meio Disney, e depois tirou. Ele não tinha base e pirou”, descreve, sem meias palavras, uma pessoa que conheceu os dois. Na verdade, mais do que a falta de base era o excesso de pó que conturbava a vida de Marcelo. Quando conheceu Susana, ele tinha saído de um tratamento para se livrar da dependência química. A atriz, que como uma pessoa de seu tempo e de seu meio não ignorava o assunto, oscilava entre a irritação e o desejo de ajudar. Procurou assistência psiquiátrica para o marido. “Ele tinha um comportamento autodestrutivo, e os riscos de recaída eram visíveis”, descreve a psiquiatra Magda Vaissman, professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro, que cuidou de Marcelo durante três meses. “Ele era fascinado pela exposição em que vivia, pelo espetáculo. O que aconteceu foi uma tragédia, causada por uma doença difícil e traiçoeira.” Foi a médica quem recomendou a internação numa clínica de recuperação depois do primeiro e humilhante escândalo em que Marcelo se envolveu: o quebra-quebra num motel onde se drogava em companhia de uma garota de programa. Com grande estardalhaço, como tudo o que faziam – e, quando não havia fotógrafos por perto, ele os chamava –, Marcelo e Susana se reconciliaram. Como prova de amor, ele gravou o rosto da atriz numa enorme tatuagem sobre as costelas.

Os probos e sérios riram-se do mau gosto dele e do pouco juízo dela. Os que já passaram pelo teste da paixão – fazer uma coisa que normalmente a pessoa não faria, e sabendo que vai dar errado – preferiram não julgar, ou pelo menos entender que esse é um campo onde a irracionalidade vence, sempre. A mais conhecida história ficcional de paixão de uma mulher mais velha por um homem mais jovem é o filme Crepúsculo dos Deuses, ou Sunset Boulevard, no título original. Numa cena venerada pelos amantes do cinema, a fita começa com um corpo boiando na piscina e um narrador contando como ele foi parar lá – um roteirista endividado se refugia no jardim de uma estrela decadente e não é preciso nem falar mais nada para saber o que acontece. Como tudo com mais de cinqüenta anos na cultura contemporânea, o filme de 1950 virou um clássico pela pura passagem do tempo – sem desmerecer suas maravilhosas qualidades. É possível que em menos tempo as reviravoltas e os dramas na vida de Susana se tornem um clássico. “Susana Vieira tem uma grande e rara comunicação com o público porque é muito forte e corajosa como mulher e como intérprete”, diz o autor Silvio de Abreu. “O público vai sempre acompanhar seus trabalhos porque, como na vida real, Susana é muito sincera consigo mesma e não tem medo de expor suas fraquezas ou suas virtudes.” Difícil pensar em personagem melhor para uma novela.

Fotos: Francisco Silva/Ag. News – Mauricio Melo – Tony Andrade/Ag. O Globo – Cleomir Tavares/Agência O Globo

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