A imaginação que Deus me deu é coisa do Diabo

Walter Navarro escreve para o jornal O Tempo (BH). Adoro humor presente em suas crônicas. Abaixo segue um bom exemplo.

Sábado ouvi do galináceo Jayme Reis frase deliciosa: “Só os que desistem conseguem”. Aí peguei carona com outro amigo, Roberto Brant, ensinando o caminho de um restaurante à linda Ana de Castro que, meio perdida, o seguia: “Mulher que não sabe o caminho já é meio caminho andado”. Genial também, né? Só discordo da definição. Aninha, filha do grande Amilcar de Castro, é uma escultura ambulante; não é só uma mulher44, mas enorme área de lazer, perfeito parque de diversões. É o que imagino… Só imagino. Tô mais perdido que calcinha em missa de sétimo dia, quer dizer, em suruba. Sem inspiração, vivo mendigando frases alheias: “Ei você aí, me dá uma piada aí…”. Quem sou eu pra chegar perto de Aninha e suas amigas! A última mulher que penetrei foi a estátua da Liberdade. Mentira, nunca fui a Nova York. A última mulher que peguei me deu um papelzinho e acrescentou: “Tá sem os 10%…”.

Mentira, nunca fui ao Café Photo de São Paulo. A única coisa que faço ultimamente é comprar frango. E ver TV. Já repararam que, em todo filme, na cena de enterro, o padre fala a mesma coisa? “Ainda que eu andasse pelo vale das sombras da morte, não temeria mal algum, porque tu estás comigo. A tua vara e teu cajado me consolam”… É ruim, heim! Que papo é esse, meu? Vara, cajado consolando na sombra? Tô fora! Ando tão down que outro dia, conversando com um Prozac, ele começou a chorar. Corro tão masoquista que hoje à noite vou pra Blumenau, mas só se chover. E tem aquela ótima do masoquista que suplica: “Me bate!”. E o sádico: “Não!”. Só dói quando eu rio. Aí morri de rir e de dor com o hino e o bordão daquela propaganda da Embratel: “Empresário masoquista, resista!”. Não cheguei a trocar a banda larga da Internet pelo telefone e as filas, mas ainda chego lá e vou pedir: “Isso, bate mais, bate mais forte, Dona Lurdinha!”. E aquele comercial do novo Voyage, com o Sepultura cantando Bossa Nova? “O coquinho caiu na areia da praia, um dia levou-o pra dentro do mar…”. Melhor, só goteira de esgoto na cabeça.

Sofrimento maior e melhor, só esperar Godot, esperar e-mail que não chega; mensagens com um lacônico “oi”, telefonemas mudos ou dizendo que “foi engano”, aviso de caixa-postal cheia, cartão-postal do Robinson Crusoé saudoso. Melhor, só e-mail com tantas palavras ocas, fora de si, de um suburbano coração: “C’est fini; c’est fini”. Tantas palavras, que eu conhecia e já não falo mais, jamais. Quantas palavras, que ela adorava, saíram de cartaz. Nós aprendemos palavras duras, como dizer perdi, perdi, palavras tontas, nossas palavras. Quem falou não está mais aqui. Ainda bem que não estou sozinho neste vale de lágrimas, vejam o que meu amigo Chico disse pra ex-namorada: “Dei prá maldizer o nosso lar. Pra sujar teu nome, te humilhar e me vingar a qualquer preço, te adorando pelo avesso, só pra mostrar que ainda sou teu”. Que delícia! Martelada no polegar! Injeção na testa!

Pau no liquidificador! Hummm… Mas podia ser pior: “Eu te estranhei, me debrucei sobre o teu corpo e duvidei e me arrastei e te arranhei e me agarrei nos teus cabelos, no teu peito, teu pijama, nos teus pés, ao pé da cama, sem carinho, sem coberta, no tapete atrás da porta”. Além de descobrir que a “ex” tá nem aí pra ele, o infeliz ainda percebe que os cabelos eram peruca, o peito, de silicone, o pijama, do Ricardão, e o tapete tava cheio de poeira e pêlos. É como ter as unhas arrancadas por alicate no filme “O Albergue”. Um deleite. Mas tem coisa pior: discutir peça e orçamento de carro com mecânico. Pedir segunda via em repartição púbica. Ou então o beijo de Judas, da Mulher-Aranha ou com gosto de cebola… Melhor só a mão nas costas subindo as escadas, a punhalada final de Brutus, o bafo quente na nuca, a unha no calcanhar, um torturante band-aid no guaraná, a vara, o cajado nas sombras.

Qual a pior tortura? A fila que anda ou a do SUS? O lacônico “oi” ou a tese final, fatal dentro de uma garrafa nadando no mar a caminho da nossa Guantánamo de cada dia, a ilha de “Lost” sem Papillon? Reza a lenda que numa bela tarde de 1472, em Florença, Leonardo da Vinci deixou seu ateliê e foi à praça principal comprar frango. Lá chegando, deparou-se com multidão incontável. Todos querendo frango. Leonardo, baixa estatura, mas mentalmente da altura dos píncaros, começou a pular e a gritar, levantando o indicador: “Um frango, eu quero um frango”. Num átimo de segundo, o gênio renascentista mudou de idéia: “Não, um não, eu quero dois, dois frangos”. PS: Judia de mim, Dona Lurdinha!

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