Editorial: A gota d’água para Calheiros

Os bois voadores do presidente do Senado, Renan Calheiros, são bezerrinhos que mal se sustêm nas patas perto do que acaba de vir a público sobre as múltiplas atividades do “coronel” alagoano. Tentando provar que tinha recursos próprios de sobra para arcar com os seus gastos extramatrimoniais – sem depender, portanto, de aportes do bom amigo Cláudio Gontijo ou da empreiteira Mendes Júnior da qual este é lobista -, o senador embrulhão invocou mirabolantes vendas de cabeças de gado, que lhe teriam rendido R$ 1,9 milhão. As reses negociadas fariam parte dos rebanhos apascentados nas suas fabulosamente rentáveis fazendas de criação, em Murici, a uns 40 quilômetros de Maceió. Calheiros apresentou documentos das transações que não resistiram nem à primeira e rápida perícia da Polícia Federal, a pedido do Conselho de Ética do Senado.

A segunda devassa nesses e em outros papéis do parlamentar processado por quebra de decoro pode dar num beco sem saída, à falta de outros documentos ainda. Eles corroborariam, ou não, as ladinas alegações do presidente “daqui não saio, daqui ninguém me tira”, como passou a ser conhecido desde que se acorrentou à cadeira de mais alto espaldar da Mesa do Senado. Com o que têm em mãos, os peritos não conseguirão responder à maioria das 30 questões a eles formuladas pelo Conselho. Dificilmente, por exemplo, será possível checar se os saques efetuados por Calheiros de sua conta bancária se destinavam a pagar a pensão alimentícia à filha que teve com a sua namorada. Nada impediria, por exemplo, que entesourasse as retiradas – feitas para inglês ver – e que o dinheiro a ela entregue pelo lobista viesse ou da empresa para a qual trabalha ou do caixa 2 do senador, de cuja existência ninguém duvida.

Afinal, o que veio a público – numa circunstanciada reportagem da revista Veja – mostra a fartura de recursos não contabilizados de que dispõe o senador alagoano, o que, aliás, não surpreende ninguém. Isso, aliás, não é o que a publicação traz de mais comprometedor: o dinheiro de que a Receita nunca ouviu falar foi só um meio ilícito para um fim mais ilícito ainda. A gota d’água que faltava para entornar de vez as chances de Calheiros sair incólume das evidências de má conduta que já se empilhavam contra ele é a revelação de que pagou R$ 1,3 milhão, cash, em moeda nacional e em dólares, para se tornar sócio – acobertado por laranjas – de duas estações de rádio e de um jornal em Alagoas (do qual já se desfez). O seu parceiro – hoje seu desafeto – foi o usineiro João Lyra, sogro de Pedro Collor, o primeiro a denunciar os podres da patota do irmão presidente – da qual Calheiros era membro distinguido.

A lei proíbe a deputados e senadores, sob pena de perda de mandato, ter vínculo com empresas concessionárias de serviço público – a exemplo de órgãos de mídia eletrônica. Levantamentos demonstraram que pelo menos 1 em 10 deputados e pelo menos 1 em 4 senadores controlam, direta ou indiretamente, concessões de rádio ou TV. À primeira vista, a ilicitude compartilhada poderia servir a Calheiros como tábua de salvação. Mas, somando-se aos fios em que se enredou, essa nova denúncia parece empurrá-lo definitivamente para além do ponto de não-retorno. Quanto mais não fosse, pelo “pequeno detalhe” de ele ter recorrido a um assessor legislativo, Everaldo França Ferro, identificado na reportagem como “funcionário de confiança do gabinete do senador”, para pagar R$ 700 mil em parcelas ao sócio João Lyra, que havia adiantado a Calheiros a sua parte no negócio.

Ferro, segundo a revista, é o responsável pela agenda política do chefe junto ao primeiro escalão da administração federal. Ele é também suspeito de tratar com o notório Zuleido Veras, da Gautama, velho amigo do senador, da liberação de verbas para uma obra fictícia em Alagoas. Uma representação do DEM ao Conselho de Ética para a abertura de outro processo por quebra de decoro contra Calheiros é a primeira conseqüência prática da descoberta de que o presidente do Senado, além de cultivar relações promíscuas com um lobista de empresa prestadora de serviços para a área estatal e de ser um pecuarista inverossimilmente bem-sucedido, entrou para o ramo da comunicação, juntando-se ao coronelato eletrônico da política nacional.

Jornal “O Estado de São Paulo”

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