Editorial: Contabilidade de deputados sugere conta de chegada

De Guilherme Scarance e Silvia Amorim:
Além das suspeitas reveladas ontem sobre o uso de verba indenizatória na Câmara, o levantamento feito pelo Estado na prestação de contas dos deputados identificou uma categoria inusitada – 14 deputados que gastaram rigorosamente os R$ 15 mil a que tiveram direito nos primeiros meses da legislatura. Nem um centavo a mais ou a menos.

Cada parlamentar tem direito a gastar R$ 180 mil por ano em seu Estado, mas o reembolso máximo é de R$ 15 mil mensais. A suspeita de uso de notas frias para abocanhar o valor da verba já foi alvo de investigação, na legislatura passada.

De acordo com as notas fiscais de Givaldo Carimbão (PSB-AL), ele gastou, tanto em fevereiro como em março, R$ 4.380 em combustíveis e R$ 10.620 em locomoção, hospedagem e alimentação. A fórmula de repetir a prestações de contas também foi usada por Davi Alcolumbre (DEM-AP). Declarou despesa de R$ 4 mil com combustíveis e R$ 11 mil com locomoção, hospedagem e alimentação.

Mussa Demes (DEM-PI) foi o deputado que apresentou a prestação de contas mais sintética do grupo que não desperdiça um único real da verba. Declarou ter gasto, tanto em fevereiro como em março, R$ 15 mil com a categoria locomoção, hospedagem e alimentação.

Para o procurador-geral do Tribunal de Contas da União (TCU), Lucas Rocha Furtado, a verba é “faz-de-conta” e serve para elevar o salário dos deputados para cerca de R$ 30 mil, fugindo do desgaste popular. Segundo ele, independentemente de as notas ficais serem frias ou não, os valores não vão para a atuação parlamentar nos Estados. Furtado garante que os deputados criaram um sistema impossível de ser fiscalizado.

Carimbão, Alcolumbre e Demes foram procurados pelo Estado. Carimbão estava no interior de Alagoas e não retornou a ligação. Os parlamentares do DEM não responderam aos recados deixados nos gabinetes.

GASOLINA

Os dados de 512 deputados em exercício e 22 licenciados ou que deixaram o mandato revelaram que a Câmara desembolsou R$ 11,2 milhões em verba indenizatória em fevereiro e março. Só com combustíveis foram R$ 2,5 milhões – com os quais seria possível comprar 1 milhão de litros de gasolina, o suficiente para dar 255 voltas ao redor da Terra. O deputado Deley (PSC-RJ) apresentou a maior prestação de contas – R$ 43.585,41 -, mas alega que errou na declaração.

Jornal Estado de São Paulo
24/04/2007

Anúncios

No comments yet

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: