Editorial: Riscos do factóide

 marina-maggessi.jpgEscutas telefônicas , autorizadas pela Justiça para apressar investigações sobre a máfia que explora caça-níqueis, revelam que uma das mais conhecidas inspetoras da Polícia Civil, a hoje deputada Marina Maggessi (foto), sugeriu o assassinato de um colega de profissão. Pilhada em flagrante, desconversou. Apenas teria desejado a morte do outro policial – e desejar, ressalvou, não é crime. Um bom advogado de defesa pode até convencer a Justiça de que a inspetora só deve ser acusada de maus pensamentos. Um juiz complacente talvez desconsidere o fato de que o diálogo entre a inspetora e o suspeito de integrar a quadrilha incrustada na polícia representava risco real para o desafeto.

No padrão em que rasteja a autoridade no Rio, tudo é possível. Não foi possível que uma inspetora falastrona e exibicionista se elegesse deputada e conseguisse, com o mandato, a impunidade necessária para eventuais e futuras ilicitudes? O chefe do grupo também não conquistou um mandato que lhe assegura o mesmo habeas-corpus preventivo?

Diga-se, a bem da verdade, que a lassidão moral não é privativa das autoridades. A mídia, por exemplo, costuma oferecer preciosas contribuições à disseminação da imoralidade. Os mesmos grampos que flagraram Marina Maggessi propondo um assassinato revelaram também as estranhas e obscuras relações vinculando a agora parlamentar ao maior jornal e à maior emissora de televisão do Estado. Ela informa ao seu interlocutor que tinha “um esquema” com esses veículos de comunicação para que suas operações ganhassem dimensões heróicas, facciosamente ampliadas.

Os dois veículos se deixaram usar pela inspetora e construíram a fama que a tornou imune a qualquer censura. Um genuíno toma-lá- -dá-cá: quem garante furos de reportagem ganha, como prêmio, um mandato no Congresso. Assim se montou uma típica usina de factóides.

Muitos cariocas sofrem de um estranho fascínio por factóides. Um prefeito foi redesenhado por este método e, através dele, continua governando.

Um governador acaba de ser eleito pela esperança da esmagadora maioria da população, graças à seriedade no estilo e nas atitudes. Não deve, portanto, assumir o risco de transformar uma possibilidade de solução em mera ação paliativa – como o foi a presença inerte das tropas da Força de Segurança Nacional.

Não se pode acusar o governador de embromação. Qualquer coisa é melhor do que nada. E milhares de militares fardados são melhores do que centenas de PMs escondidos por trás de atividades burocráticas.

A presença de militares nas ruas do Rio devolverá, durante algum tempo, uma sensação de segurança há muito esquecida pela população. Não trará, contudo, a solução para a crise de segurança pública. Funcionará como um band-aid sobre ferimento profundo. Estanca o sangue por alguns minutos, mas não protege a ferida de infecções e, principalmente, não promove a cura.

Empobrecidas por soldos raquíticos, armamento insuficiente, escassez de munição, racionamento que atinge até mesmo a bóia da soldadesca, as Forças Armadas são respeitadas como símbolo, desde que não sejam obrigadas a entrar em ação. Fala-se que o Exército não recebe treinamento para agir em situações de guerra urbana, como a que se vive no Rio. Pode ser pior: é muito provável que os soldados não estejam sendo treinados adequadamente para nenhum tipo de guerra, por absoluta falta de recursos, sistematicamente negados por governos que tratam as Forças Armadas como se fossem, ainda, a perfeita tradução do atraso e do golpismo.

Renovadas em seus quadros, modernizadas ideologicamente, livres de ranços intervencionistas, as Forças Armadas tornaram-se, no entanto, obsoletas tecnicamente, e agora são ameaçadas pelo pior dos golpes: serem usadas como instrumento de política.

Fonte: Jornal do Brasil

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