Editorial: Um gigante pesadão e lento

É injusto chamar o Brasil de gigante adormecido. É apenas um gigante pesadão e lento, condenado, ninguém sabe até quando, a seguir de longe as economias mais dinâmicas. A diferença ficou evidente, mais uma vez, nas últimas projeções divulgadas pelo Fundo Monetário Internacional (FMI). A economia brasileira deve crescer 4,4% neste ano e 4,2% no próximo, segundo os novos cálculos. Será um desempenho melhor que o previsto no cenário anterior, publicado em setembro, mas o País continuará bem atrás do pelotão mais veloz. Os emergentes deverão crescer em média 7,5% em 2007 e 7,1% em 2008. O bloco da Ásia seguirá disparado na frente, com taxas de expansão de 8,8% e 8,4%.

O desempenho brasileiro é medíocre até para os padrões latino-americanos. Chile, Colômbia e Peru têm melhores perspectivas de expansão, embora os juros tenham sido elevados nos três países, no ano passado, para conter pressões inflacionárias. Argentina e Venezuela também devem crescer mais que o Brasil, mas não servem para a comparação, porque suas condições – a começar pela alta de preços – são menos sustentáveis. Em toda a região, só o Chile tem combinado, há anos, contas públicas em bom estado, inflação contida e produtividade em alta constante.

As perspectivas brasileiras foram analisadas numa entrevista, na quarta-feira, pelo diretor-adjunto de Pesquisa Econômica do FMI, Charles Collyns. Ele apontou, em primeiro lugar, uma série de sinais animadores: a inflação foi reduzida, os juros têm caído e poderão continuar em queda, os preços das commodities continuam favoráveis, há um novo programa de investimentos e a economia poderá ganhar mais impulso neste e no próximo ano. Todos estes fatores servem para explicar por que as projeções foram revistas para cima. “Mas, ao mesmo tempo”, acrescentou Collyns, “fatores estruturais continuam dificultando o crescimento no Brasil.” Esses fatores são bem conhecidos há muito tempo: excesso de impostos para financiar gastos públicos excessivos, entraves à expansão do crédito privado, mercado de capitais insuficientemente desenvolvido, falhas de infra-estrutura e um ambiente de negócios pouco favorável.

Todos esses problemas têm sido mencionados, quase sem variação, nas avaliações publicadas pelo FMI e pelo Banco Mundial. Estudos sobre competitividade, produzidos tanto por empresas de consultoria como pelo Fórum Econômico Mundial, têm repisado essas questões. Collyns mencionou, com aparente otimismo, uma agenda governamental de reformas, incluída a tributária. “O governo”, disse o economista, “conhece bem esses problemas e está agindo para enfrentá-los.” Não se sabe se essa parte da resposta foi meramente diplomática ou se ele acredita na disposição do governo de cuidar de todas essas questões.

Mas o Brasil apareceu em posição medíocre, nos últimos dias, não só no Panorama Econômico Mundial publicado em abril e setembro pelo FMI. Também o relatório da Organização Mundial do Comércio (OMC) mostrou o País em posição modesta, na classificação dos exportadores. Entre 2005 e 2006 o Brasil caiu do 23º para o 24º lugar, embora suas exportações tenham continuado a crescer. Como de costume, outros exportadores conseguiram avançar com maior dinamismo. Mas o dado mais importante não é a perda de um posto na classificação. Isso pode ocorrer mesmo a economias altamente competitivas.

Apesar da rápida expansão de suas vendas externas, depois da mudança cambial de 1999, o Brasil permaneceu, pelos padrões da Ásia e mesmo da América Latina, uma economia pouco aberta. Além disso, explorou de forma insuficiente as oportunidades criadas pela prosperidade mundial nos últimos seis anos. Na diplomacia, deu prioridade aos acordos Sul-Sul, nem sempre acertando na escolha de parceiros, enquanto os concorrentes buscavam acesso, em primeiro lugar, aos maiores mercados, sem confundir ideologia e comércio. Em seis anos, a China duplicou sua participação no comércio mundial e praticamente encostou nos dois primeiros colocados, a Alemanha e os Estados Unidos. Redesenhou na prática o mapa-múndi do comércio, enquanto o Brasil não foi além do discurso terceiro-mundista de seu presidente. Pode haver algo mais esclarecedor que esse contraste?

Jornal Estado de São Paulo
16/04/2007

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